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Pilha de jornais

O Estado da Fisioterapia em Portugal

  • Foto do escritor: geral ANJF
    geral ANJF
  • 23 de ago.
  • 3 min de leitura

Os dias de hoje trazem desafios transversais às diversas profissões da área da saúde. O envelhecimento demográfico, o aumento de doenças crónicas e a crise de recursos humanos exigem uma reflexão profunda sobre o papel da Fisioterapia.

O Fisioterapeuta é, reconhecidamente, um dos profissionais que mais tempo passa junto dos utentes. Seja da Unidade de Cuidados Intensivos ao internamento da enfermaria, da clínica convencionada ao centro de reabilitação, do centro de saúde à clínica privada, do centro de alto rendimento ao domicílio e da ERPI ao estúdio de pilates. A proximidade cria um elo de confiança que se traduz numa crescente valorização social. Atualmente, o fisioterapeuta está mais preparado do que nunca para atuar de forma autónoma, podendo ser considerado um profissional de primeiro contacto. A consolidação da Ordem dos Fisioterapeutas e a definição clara do Ato do Fisioterapeuta bem como do código deontológico são garantias de segurança para o cidadão, estando a fisioterapia assente em pilares de uma autonomia científica robustos.

No entanto, esta autonomia colide com algumas barreiras estruturais. A necessidade de assegurar um continuum de cuidados obriga a uma articulação multidisciplinar que é muitas vezes deficiente. Embora a importância da multidisciplinaridade seja defendida a nível académico, a realidade profissional revela um desconhecimento sobre as competências específicas de cada profissional.

É urgente promover discussões de casos clínicos e experiências interprofissionais precoces, para que a comunicação seja eficaz e centrada no utente. A escassez de fisioterapeutas nos setores público e social reflete-se negativamente não só na dinâmica de trabalho, mas também no reconhecimento da profissão entre pares. Esta carência de recursos humanos compromete severamente os processos de reabilitação, resultando na perda de janelas de recuperação ótimas e na incapacidade de resposta em áreas cruciais como a prevenção de patologias crónicas e a promoção da saúde comunitária.

Esta pressão contínua no sistema e nos seus profissionais de saúde tem alimentado um ciclo de burnout, caracterizado por exaustão emocional e despersonalização. Estudos indicam que este fenómeno compromete a atenção, a memória de trabalho e a capacidade de resolução de problemas do clínico, aumentando a probabilidade de erros na gestão do utente. Torna-se, por isso, imperativo apostar na Fisioterapia em todos os contextos assistenciais. É fundamental que o contributo destes profissionais seja integrado de forma estratégica, desde o desenho de protocolos clínicos até à formulação de políticas públicas de saúde, garantindo a sustentabilidade do sistema e o bem-estar de quem cuida.

Dados recentes de uma revisão revelam que os problemas de saúde mental, nomeadamente o burnout, têm um elevado risco nos jovens profissionais, estimando que até 65% dos recém-licenciados pensem deixar a profissão no espaço de uma década(1). O futuro da Fisioterapia em Portugal exige uma mudança de paradigma na gestão de recursos humanos que substitua o atual desgaste dos profissionais por modelos de cuidado colaborativos, planos de carreira que valorizem a complexidade e os resultados em detrimento do mero volume de doentes e a implementação de uma cultura de prevenção que promova a resiliência e o apoio psicológico proativo desde a formação superior até ao contexto laboral.

A Fisioterapia nunca teve tanto potencial para transformar a saúde pública em Portugal, mas a concretização deste futuro depende da nossa capacidade de sustentar a nossa prática na evidência científica disponível, demonstrando que esta área de conhecimentos possui uma avaliação económica e um impacto social mensuráveis para o país. Esta afirmação da Fisioterapia como ciência de valor deve ser acompanhada por um compromisso com as condições de trabalho, mitigando os riscos de burnout que ameaçam a retenção de talentos. Só ao garantir um ambiente que sustente o bem-estar dos profissionais e reconheça a sua autonomia técnica será possível assegurar uma prestação de cuidados de excelência, capaz de responder de forma resiliente às necessidades da sociedade portuguesa.

Leonor Correia, Presidente da Direção (2025-2026) da ANJF

 
 
 

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